Você vive num mundo complicado. Acorda às seis da manhã para trabalhar. Escova os dentes, toma banho, toma café e sai torcendo para não chover. Caminha durante uns 10 minutos, aguarda na fila do ônibus que não terá lugar para você ir sentado. O cheiro de algumas pessoas incomoda e seu dia promete ser apenas comum, mais do mesmo. Seu chefe reclama do seu atraso. “Dez minutos fazem toda a diferença do mundo”, diz o homem que prefere acreditar que ser gerente de operações é algo extremamente excitante.
Um começo agitado logo de manhã no escritório. Boatos de demissão surgem e se espalham como pólvora. A maioria está com medo do medo de perder seus empregos, você se envaidece por parecer ser o único que não está se importando com o assunto. Até gostaria que sua demissão surgisse, seria a liberdade de um trabalho ruim. Mas em alguns instantes seu pensamento muda: “Ruim mesmo é estar desempregado”. Percebe que com isso está morrendo e não sabia, ou seja, prefere suportar algo que não gosta apenas por segurança? Melhor não pensar nisso. Este é o segundo sinal da morte em vida: o esquecimento.
Seu trabalho incomoda, causa dor, cansaço e qualquer prazer ou satisfação está longe demais neste momento. Existe uma bola de ferro presa no seu pé, uma coleira de receios e contradições. Acredita que mereça realizar algo mais útil, mas se guarda no sempre amanhã. Este é o terceiro sinal da morte que surge às 11h30 da manhã, perto do horário da saída para o almoço. Logo terá 50 anos e um passado cheio de tempo desperdiçado. Vai repudiar a vida, desejar a morte, ficar azedo e se tornar indiferente. Sabe que já não liga para certas coisas como ligava antes. Não se interessa mais por aventuras e guarda pequenas ilusões. O quarto sinal da morte inconsciente em sua vida: você não sorri e não se lembra quando foi a última vez que sorriu de verdade.
Alguns sonhos guardados ainda batem na porta do seu coração, algumas lembranças boas, como o desejo de conhecer o mundo carregando apenas uma mochila nas costas, era um dos seus objetivos. É meio dia, o horário de almoço quase sempre é passageiro e solitário, seu dinheiro curto, tudo contado. Seu computador fica em logoff, seu coração em stand by. Um quinto sinal.
Um bar de esquina, prato feito e refrigerante: total de R$ 10 reais. Pensamentos soltos, um bife de frango frio e goles de uma Coca-Cola quente. Por azar o céu começa a dar sinais de tempestade. Lembra que se esqueceu de trazer seu guarda-chuva do escritório. Um riso de frustração em seus lábios. É hora de voltar, não é possível fugir das obrigações.
Os boatos de demissão se intensificam, a “rádio-peão” consegue informações do alto escalão: “O estagiário, do setor de recursos humanos, confirmou que a chefia geral pretende demitir 50 funcionários nos próximos dias”. Surge então a dúvida: “Mas qual a garantia que temos disso ser verdade?” Alguém da mesa ao lado responde: “Bom, esse cara anda pegando aquela estagiária novata do outro lado da sala”, diz alguém. “Foi ela mesma quem contou isso”, diz outro alguém. Ninguém tem muita certeza, mas sabe como é, "onde há fumaça há fogo”, pensa. Pela primeira vez sentiu receio de tudo aquilo ser verdade. Perder o emprego não seria tanto um alívio, existem contas para pagar - o sexto sinal. Prefere deixar tudo isso pra lá e fazer uma pausa para o café.
O café, no entanto, não está disponível. São duas máquinas de café instantâneo, uma está quebrada e a outra sem copos descartáveis. Parece que vão demorar a resolver o problema. “Não seria melhor descer e pedir por um café num bar?” Desiste da ideia, seu pequeno prazer foi deixado de lado. O sétimo sinal: pequenas desistências. Para compensar a falta de café prefere fazer hora no banheiro. Mais de 30 minutos se passaram e você ainda está olhando para as paredes rabiscadas. A enorme quantidade de besteiras escritas nesses lugares pode ser facilmente utilizada como base de estudo para a mediocridade humana. Você volta com a expressão de derrota no rosto. No meio da tarde se pergunta: “O que estou fazendo aqui?!” Uma voz do fundo da sua alma surge com a resposta: “Morrendo”. O oitavo sinal.
O coordenador da equipe pede um momento: “Por favor, você pode vir até a minha sala”. Depois de instantes está no meio de um monólogo de alguém completamente chato, falando sobre a importância de horários, metas e de como o comprometimento de um funcionário pode contribuir para a empresa e colegas de trabalho. “Seus atrasos estão prejudicando todo mundo”, diz. Surge então uma pergunta: “Será que posso acreditar que esses atrasos injustificados não voltarão a se repetir? Posso contar com sua compreensão?” Uma vontade absurda de mandar seu chefe para a puta que o pariu e dizer um tremendo “foda-se” e um “vai tomar no cu”. Mas tudo o que você diz é: “Sim, com certeza”. Tem início o nono sinal e uma forte chuva, um temporal de expectativas e ilusões.
Seu expediente termina e surge um final de tarde com trânsito. Quase duas horas depois você está chegando em casa, ligando o computador e entrando em sites de pornografia. Alivia sua tensão olhando mulheres tão vulgares como a sua vida. Um jantar esquentado no microondas, louça suja em cima da pia, livros criando pó dentro do quarto e um filme ruim na TV durante a madrugada. Um pouco de café requentado, momentos de angústia, inquietação. Melhor dormir, ser um herói nos seus sonhos. Um caixão de mágoas e frustrações. Cobertores de lágrimas e indiferença. Silêncio, um ranger de tédio. Amanhã você fará melhor. Ajusta o relógio para 30 minutos mais cedo. Como prometeu, não quer chegar atrasado. Em poucos instantes estará dormindo, seu velório começará. O décimo sinal de como morrer e ainda acreditar que está vivo.
1 comentários:
Muito real...que chega a ser surreal...hahahah
abraços!
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